domingo, 24 de agosto de 2014

Sentenças irrevogáveis


Passado os tempos de infância pensava que a adolescência fosse o único período de dúvidas, de sofrimento emocional ao longo da vida. Dali para frente seria estável como as montanhas e teria todas as respostas.
Os adultos que eu conhecia não tinham dúvida só certezas e sentenças irrevogáveis.
Exerciam sua autoridade e cheios de certezas exigiam obediência, respeito, e não admitiam questionamento.
O tempo passou. Não me trouxe nem respostas, nem a clarividência que eu julgava atributo da idade.
A adolescência foi sim, uma fase conturbada. Vi que precisava me desvencilhar da teia que me sufocava e proibia qualquer esperança, qualquer visão. São tantos os fios invisíveis que nos paralisam e que constituem os pilares de nossa formação! São tantas as mentiras, culpas, dogmas, medos, tanto entulho a sabotar nossa energia.
Procurei reconstruir do zero a maior parte das estruturas que me haviam imposto, mas sinto este processo não tem fim.

Veio a vida adulta e, nesta que nos colhe na engrenagem com suas faturas a pagar, tarefas a cumprir, papéis a desempenhar que mal sobra tempo para nos conhecer. Talvez seja assim porque temos medo. Eu tive e ainda tenho todos.
E assim não queremos tempo livre, nem ficar sozinhos e por isso nos atrelamos a qualquer coisa que nos dê uma rotina, um sentimento de pertencer e que nos permita não pensar.
Mesmo assim, nas horas quietas ouvimos a voz noturna de rios subterrâneos, e para nosso espanto, vemos emergir pensamentos independentes e transversos, templos soterrados, buracos negros, mundos insuspeitos.
Somos bichos, animais mamíferos, e também somos um mistério.

Minha cabeça continua bem, no lugar, sem nenhum corte da rainha, pensante e determinada como sempre...
Errada ou não sou eu. Queria avisar que estou bem. Sei que tem uma turma de amigos queridos que anda preocupada comigo achando que estou meio down. Não estou não. Só para constar tá?!
Esse texto aqui é público, então acabo tendo que medir minhas palavras apesar de adorar refletir abertamente meus sentimentos diários.
Não é prudente sair tirando minhas verdades e jogando em um lugar que as pessoas vão ler.
Mas, posso garantir que estou bem. Continuo me atualizando, planejando, me informando, escrevendo e lendo meus livros enquanto o sono não chega, assistindo aos velhos e novos filmes, dormindo quando bate o sono e olhando pro céu rezando conscientemente.
Afinal, somos sim autores de boa parte de nossas escolhas e omissões, audácias e acomodações, nossa esperança ou desconfiança. Responsáveis por como saboreamos o nosso tempo, a nossa época, que, afinal, é sempre AGORA!!!!!!!
Yvone Pereira

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Exercitando o silencio

Muitos povos orientais conhecidos pela prática da meditação fazem-na em silêncio, pois é neste estado que conseguem encontrar a paz na mente e no coração, que é tão preciosa e tão escassa no mundo onde vivemos.
Dias atrás, li na biografia de Mahatma Gandhi um tópico que afirma um detalhe interessante: durante um dia da semana, ele se recolhia e ficava por 24 horas tendo como companheiro apenas o silêncio. Naquele dia, nada, nem ninguém, ouviria uma sílaba pronunciada por ele.

Recentemente, vivenciei esta prática e senti-me como se tivesse feito uma faxina interior.
O silêncio nos envolve e é preciso silenciar para ouvir, silenciar para recuperar a saúde física e mental - O mundo anda doente.
Na verdade neste dia do meu silêncio total e não planejado, percebi que antes tinha que silenciar meu barulho interior e não é nada fácil ficar em silencio e ainda se distanciar do barulho exterior. Neste estado, pensava comigo mesma como seria bom se a gente descobrisse cedo o valor do silencio antes de se vangloriar por não levar desaforo para casa.
Mas, a maturidade nos abre horizontes, mostra que a força espiritual é muito maior que qualquer força física e que esta força é sim originária da reflexão, da consciência, da meditação e do silêncio.
O silêncio pode de fato preencher espaços gigantescos acumulados de palavras que não precisariam ser ditas. Estou praticando.
Convido a todos a começar a exercitar o silêncio. Vai ser bom para o seu espírito.
Encontre paz, encontre seu silêncio e viva melhor.

Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras". Clarice Lispector

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Simplicidade e escolhas

Quem acompanha o blog ou que o visita de vez em quando sabe da grande mudança que venho promovendo em minha vida desde que decidi ter uma vida simples.
Hoje passo por aqui para compartilhar com vocês minhas reflexões sobre o que venho aprendendo com essa experiência.
"Você não percebe quanta coisa você tem até que você tente colocar tudo em uma mala.” Y. 
Quando você começa realmente a querer viver mais simples, mais leve e com mais mobilidade, descobre que esse é um ato não só de despojamento material ou de abandono das vaidades e apegos; esvaziar as gavetas, armários a casa é um bom ponto de partida, concordo - mas não é só isso.
Na verdade acho que nos falta a idéia correta sobre o quê realmente é a vida simples, e o quanto esta simplicidade nos advém não através de viver – obrigatoriamente – em uma casa sem televisão ou luz elétrica, ou em meio a um bosque rico em flores e frutos, mas sim de se aprender a escolher com consciência e maturidade.
Desde que comecei a eliminar coisas (ainda não consegui terminar), também passei a policiar minhas compras para evitar gastos irracionais, a poupar mais dinheiro e tempo e, quando me dei conta a decisão de eliminar o excesso acabou naturalmente transbordando para todas as outras áreas da minha vida, e é bom que seja assim.
Quando você começa a se perguntar de verdade por que algo é importante para você ou por que você precisa daquilo, já sabe conscientemente que é hora de fazer escolhas sensatas e coerentes que sirvam de guia para medir todas as suas decisões futuras.
Vida simples não implica escolhas simples - Requer um nível de consciência baseada em seus valores pessoais e somente você é que pode estabelecer suas prioridades e julgar cada escolha a ser feita de acordo com essas prioridades.

Não é nada fácil por em prática a vida que se quer, acreditar nos sonhos e não se entregar para as prontas e confortáveis desculpas que nos eximem da busca, mas que nunca nos satisfazem.
No final eu acho que tudo é uma mistura de acaso e escolha. Do acaso, nada ha fazer. Das escolhas, o mais duro é encarar que as fizemos, sempre!
Dias atrás li uma frase de Thoreau que me tem me movido: 'vá em direção ao seu sonho. Viva a vida que quer viver. '
E é só isso que vou fazer pelos próximos meses. A aventura só continua... Agora terá versão marítima.
 
Em breve passo aqui para contar sobre as novas escolhas.
Que os anjos digam amém!

sábado, 10 de maio de 2014

Lagarta e Borboleta

Então chegou mais um ‘Dia das Mães’.
Mãe é onde tudo começa, onde nascemos para esta vida de nunca estar prontos...
Hoje compreendo e comemoro essa viagem rumo ao gestar e parir de nós mesmos.
Nossa gestação e parto se repetem ciclo após ciclo, renascemos maiores, melhores, mais fortes. Com mais cicatrizes e cabelos brancos, é bem verdade. Mas se estamos atentos e presentes, se aproveitamos os carinhos e castigos do existir, saímos cada vez mais inteiros.
Assim me sinto hoje. Novamente fechando um ciclo. Novo parto, nova Yvone. Mais eu mesma.
Agradeço a todos vocês, homens e mulheres, amigos e leitores. 

Parteiros de mim, junto comigo.
Feliz Dia das Mães.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Cebolas e filosofia


Semana passada conversando com minha filha pelo skype que mora longe, pensei, mas não falei, que ela precisa urgentemente aprender a descascar e picar uma cebola.
Tem movimento mais repetido na cozinha do que o ato de cortar cebola?
Durante algum tempo corri que nem o diabo da cruz na vã tentativa de me esquivar desta tarefa, mas hoje encaro a batalha de frente. Sim, ainda é uma batalha: o sucesso depende da eficiência da arma, porque faca ruim dificulta o serviço. E também da técnica e experiência, já que há jeitos certos de executar a ação e a prática facilita muito.
Encontrei no Vímeo um vídeo curtinho e bem feito para ensinar a picar e fatiar cebolas, que encaminhei para ela e divido com vocês
.



Como descascar e picar cebola from Paladar Estadão on Vimeo.

Enquanto ela tentava sem sucesso picar a cebola, entre choros e risadas nos despedimos.
No mesmo dia, um pouco mais tarde era a minha vez de picar a cebola, (não sei cozinhar nada sem cebola), lembrei da nossa conversa e também do poema de Neruda “Ode a Cebola”, em que ela fala dela como ‘rosa d´água com escamas de cristal’. Aliás, depois de ler o poema uma cebola nunca será a mesma coisa.

Você alguma vez já parou para admirar uma cebola? Já se deteve observando a maneira única como seus anéis transparentes se organizam? Círculos concêntricos fechando-se e abrindo-se uns sobre os outros.
Nossa existência com suas lembranças; amigos, amores, aventuras, desafetos, dores e alegrias também são organizados em nossos corações em fases. Ciclos que se expandem e se contraem de maneira semelhante às alianças das cebolas.
A cebola tem força e tem alma. Tira-se uma casca após a outra e a cebola continua a existir, e mesmo quando se tira a ultima casca, quem ousaria a dizer que a cebola acabou?

Estou na cozinha
Brinco com as palavras...
Onion...poema
Só- cebola
Estou só.
Choro.

E se você está pensando se eu já cortei cebola e aproveitei a desculpa para chorar de verdade, isso só aconteceu uma vez. Ok, duas.
Bj
yvone

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