Aprendiz de Cozinheira

Minha primeira experiência culinária aconteceu por volta dos 10 anos, mamãe havia saído corri para a cozinha cortei duas maças, uma banana nanica em pedacinhos e cobri com toddy e açúcar. Exibi a resultada à noite orgulhosíssima pouco antes do jantar. Papai experimentou fazendo caretas enquanto o pó do toddy caia sobre o seu queixo. A receita tinha uma aparência horrorosa - Recebi uma ordem: - Não faça mais bagunça na cozinha! Nada estimulante para quem um dia poderia bem podia aprender e se interessar pelo assunto.
Devo reconhecer que a minha primeira tentativa deixou o piso coberto de açúcar e meus cabelos marrons de chocolate e fiz uma bagunça danada na cozinha. Consegui me conter por algum tempo.
Alguns anos depois eu me dediquei às omeletes. Ganhei de Natal um bonequinho “cook” invenção americana - o bonequinho tinha uma frigideirinha fixa à mão e jogava pro alto um ovo (de plástico) que caia na frigideira, era movido à pilha. Senti-me inspirada e lá fui eu para a cozinha tentar fazer as omeletes. O momento de virá-las sempre era trágico freqüentemente se despedaçavam e nesse caso mudava o cardápio para ovos mexidos.
Na adolescência batia muito papo com a minha mãe na cozinha enquanto ela preparava as coisas eu ia ajudando, fazia o tempero da salada, mexia algum cozido na panela, botava a mesa...
Foi assim que eu vi as coisas como elas são antes de virarem o que comemos, e foi nessa ocasião também que descobri o talento de mamãe para decorar os pratos. Ela não deixava nada ir para a mesa sem um enfeite que ela criava.
Mas, apesar de achar tudo bonito, naquele momento eu não sentia nenhuma vontade de me envolver – Estava em plena “aborrescência”. Quando passei a trabalhar fora de casa (na adolescência) e chegava fora dos horários das refeições e para não comer comida fria comia ovo quase todo dia. Ou fritava dois ovos bem moles e misturava com arroz...Ah que delicia! Os médicos americanos ainda não haviam descoberto todos os malefícios da gema de ovo, e eu podia desfrutar a vontade!
Na verdade depois de algumas tentativas fracassadas na cozinha, nunca mais me interessei pelo assunto. Só pus a mão na massa mesmo quando virei mãe, mergulhei nas panelas e nos livros de receitas.


Em minhas primeiras incursões sofri muito. Minha Tia Marlene vivia me passando receitas. O problema é que nem sempre os livros ensinam tudo - Morria de desespero quando lia a frase “sal a gosto”.A mamãe vivia me aconselhando a não experimentar nenhuma receita nova quando viesse visita - Como saber se é bom sem uma cobaia? E apesar dos seus sábios conselhos confesso que uma vez paguei esse mico. Ainda me lembro quando testei uma massa com molho apimentado de calabresa um prato que minha avó materna preparava tão bem . "Aceita mais um pouco? – Nããããããooooo....- gemeu meu convidado, com o suor caindo pela testa e a voz igual a uma lixa. – Massss estáááá´...Uma deliciaaa.... Quando finalmente sentei à mesa para acompanhá-los e experimentei o molho, sugeri que levantássemos imediatamente e fomos para um restaurante ao lado da minha casa. 
Escalei montanhas de queijo parmesão, nadei em rios de caldo de galinha na maionese então é bom nem falar. Cheguei a lixar bolo para arrancar a parte queimada e depois disfarcei cobrindo com creme. Mas aprendi cozinhar e a gostar.
Durante muitos anos por conta dos filhos pequenos sem poder manter uma empregada todos os dias, a vida girou praticamente em torno do fogão. Nesta época também aprendi a costurar de memória lembrando os gestos da minha mãe, e vivi muitos momentos de uma felicidade básica com poucas necessidades. Cuidei dos meus filhos, da comida as primeiras orientações coisa de mãe mesmo. E vieram os tempos em que ir para a cozinha foi ficando raro. Passei a ter outras atividades fora de casa voltei a estudar, a trabalhar fora de casa e fui ensinando pessoas que cozinhavam em nossa casa que captavam o meu estilo e passavam a cozinhar melhor do que eu. Sempre há uma troca.
Até que anos antes de me mudar para o mato comecei aprofundar meus conhecimentos culinários e percebi melhor qual era de fato a melhor transformação que ocorria em mim.
Dentro de um cenário totalmente inspirador ia pra cozinha inventar coisas e experimentar novas receitas e aprender o tempo certo para trabalhar com um fogão à lenha que fiz questão de construir.

o contato com a água, o fogo, os alimentos na horta, o ritual do preparo é mágico mesmo... Notei também que em mim ocorreu uma mudança para melhor. Relaxei, fiquei mais criativa não tinha medo de experimentar combinações, inventar minhas receitas e experimentar a mistura de todas as ervas que foram propositalmente plantadas a cinco passos do meu fogão.

Não precisava mais da geladeira para conservá-las era só pegar a quantidade que quisesse sempre fresquinho e perfumado.
Agora eu sei como era mágica a cozinha da minha avó! Da minha mãe! Das minhas tias! Um dia quando vi meu filho na cozinha tentando fazer sozinho um macarrão com molho de pimenta, lembrei das minhas bananas com toddy da infância. O macarrão estava intragável! Enquanto ele gaguejava aconselhei otimista: - Insista, um dia vai dar certo!
Na cozinha e na vida o bom cozinheiro é sempre um aprendiz.

19 comentários:

  1. Puxa Yvone
    Que post delicioso, recheado de recordações e sensações.
    Lembrei tanto das minhas experiências.
    Assim como vc também ficava conversando na cozinha com minha mãe e irmãs, aliás lugar de conversa sempre foi na cozinha (isso me deu a ideia de um post! eba!). E eu sempre imitava minha avó e minha mãe a cortar os alimentos, na forma que lavava o arroz, enfim, sempre achei que é imitando que se aprende.
    Quando casei, embora soubesse fazer, o maridão comeu feijão duro, coitado. Acho que foi a ansiedade de querer agradá-lo.
    Bjs, querida

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  2. Você escreve muito bem! Uma delícia mesmo seu post.
    Eu, sou uma negação na cozinha. Mas ainda tenho esperança de despertar minhas habilidades culinárias. Costumo dizer que, pelo menos, tenho uma genética boa. Minha mãe, minha irmã, minhas tias, todas são ótimas em matéria de cozinha. Eu, não tenho muita paciencia e também como não tenho muita prática, as minhas experiências culinárias não são muito felizes. Mas ainda acho que um dia eu me revelo. Planos para pós aposentadoria...
    Beijos,
    Janete

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  3. Amiga, que post delicioso!!
    Ri demais com as suas aventuras (e desventuras) na cozinha.
    Minha experiência na cozinha aconteceu quando eu "fiz" uma sopa. Acho que foi o jeito que minha mãe arrumou de me faazer comer a tal sopa ( eu e a Mafalda, personagem do Kino).
    Odiei a experiência e nunca mais cheguei na cozinha. Casei sem saber cozinhar. Pobre marido! Pobre de mim!
    Ainda ontem, eu e ele, sentados nas cadeiras de balanço da varanda, estávamos lembrando de um ocorrido daquele tempo: sobrou arroz e inventamos de fazer bolinho de arroz. Moleza, não é? Não, amiga. A massa ficou dura, porque eu não entendia patavinas de nada e ia jogando ali, o que eu me lembrava ou imaginava que um bolinho deveria ter. E para fritar? Eu grávida, não podia nem sentir o cheiro. Deixei a tarefa para a empregada, que era da minha idade ou menor. Quando cheguei em casa, a pobre tinha fritado os bolinhos ( duros) em... azeite de oliva!
    A casa ficou "pestiada" com aquele cheiro e custei a conseguir sentir aquele cheiro novamente...rssss.
    Adorei sua horta!!!
    Beijos amiga!!

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  4. Santinha, que post gostoso ! Me fez lembrar de como aprendi a cozinhar e vou ficar mais atenta à minha reação às incursões da filharada na cozinha rsrs

    Quanto ao Natal, concordo com você, mas esse ano vou fazer um cardápio mais simples também !

    Beijinho

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  5. Yvone,
    Também lembrei muito da minha infância e adolescência, e nas minhas incursões pela cozinha.
    Adorei suas ilustrações, e fiquei tentando descobrir onde você poderia ter encontrado as imagens tão interessantes dos anos 40 (?).
    Beijos.

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  6. Yvone que lindo post, me identifiquei um pouco pois quando minha mae ia pra cozinha eu sempre estava por perto, olhando o que ela estava fazendo, e por isso sei fazer de tudo um pouco des de pratos simples ate um pouco mais sofisticados, tem vez que nao da certo, mais como disse a cozinha é um aprendizado!

    lindos seus temperos, adorei a horta, um enorme abraço!

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  7. ps: Acho cozinhar um momento magico tambem, ainda mais se podemos pegar um tempero aqui outro ali junto da terra da vida, a melhor coisa e se ter alimentos frescos e melhor ainda plantados com nosso amor e carinho!

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  8. Oi, Yvone! :)
    Ai, também vi o post da Fabi sobre as rendas e a que você fez referência. Renda parece mesmo ser um símbolo de feminilidade, né?! :)

    Meus parabéns pelo aniversário do CASAS POSSÍVEIS. :D
    Que venham muitos outros...

    Estava pensando por aqui enquanto lia este post onde você relata suas experência na cozinha. Minha mãe não nos ensinou a cozinhar, sabe? E nem eu desenvolvi tanto gosto assim pela cozinha. Deve estar aí a explicação para a cozinha ser um território estranho para mim. :(

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  9. Rosi
    Achei o máximo você dizer que imitava sua mãe e avó, era isso mesmo que eu fazia. As vezes minha mãe me colocava pra fora da cozinha porque eu ficava jogando temperos dentro das panelas pode?

    Janete
    Leve mesmo o plano “da cozinha” para adiante. Cozinhar alem de ser uma arte por prazer é uma delícia!
    Talma

    Já falamos sobre esses micos que pagamos na cozinha né? Mas deixa-me dizer: Tenho uma receita de bolinho de arroz que e divina se quiser eu te passo ta. Imagino que você até saiba, mas a minha receita......

    Dricca
    Você tem filhos pequenos e observou bem. Minha mãe não tinha muita paciência para ensinar, e meu pai como era filho único era um coco pra comer (desculpe gente filho único é um coco e pronto!). Não gostava de nada e nem percebeu que eu queria aprender.
    Por isso, igual a mãe do

    FABIANO eu incentiva meu filhos desde pequeninhos a ajudar na cozinha, mandava lavar as folhas, fazer o suco... Ficavam por ali espiando tudo, mais tarde começaram a ir pra cozinha para fazer sucos, brigadeiros (aquela sujeirada na panela, na pia...)
    Hoje todos eles cozinham, tem até um que os irmãos chamam de “metido a goumet” .
    Ah pegar as folhinhas do manjericão e levá-las do pé para a panela... Não tem preço!

    Heloisa
    Encontrei essas fotos anos 40 no flickr grupo “vintage” em inglês. São fotos que já caíram no domínio publico da comunidade. Se quiser posso te enviar o link (tenho que dar uma procuradinha basica viu)

    Agradeço demais os comentários, afinal vocês foram heróicos de lerem um post tão longo até o final.
    bjus

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  10. he, he, he! Yvone, que delícia, a começar pelas imagens do início do post, bem da minha época, em que também ensaiava os primeiros passinhos na cozinha, mas nunca fui boa nisso.
    No livro da Julie, há um capítulo em que ela conta as suas experiências com ovos e omeletes.
    Se já estou a lhe conhecer mais um pouquinho, ainda deve estar colada ao pc, com o marido, roncando ao lado. rsrsr "Eu vejo coisas..." rsrsrs

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  11. que texto maravilhoso!
    entrei na tua história e me imaginei ali, do teu lado enquanto falavas.
    ri muito com o macarrão apimentado!
    e apesar de escrever pouco por aqui, sempre venho te ver!
    hj vim te trazer uma novidade:
    nasceu minha nova cria!
    www.cherryqueen1.blogspot.com
    o nome do blog é Something Else e sobre decoração, mas de uma outra ótica. te espero lá! bjs

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  12. Yvone,
    Adorei o seu post!! Fiz as primeiras incursões também com mamis, aprendi a cozinhar, mas não pratico muito. Acho que o fato de ainda não ter mudado para a minha futura casa não me inspira... rs.
    Beijos
    lelê

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  13. diliça de post com uma estória bem parecida com a minha.
    minha mãe cozinha divinamente.
    minha irmã tem até um buffet: é cozinheira tres chic.
    eu...
    sempre fiquei com vergonha delas.
    o resultado é que nem sempre quero enfrentar a cozinha.
    me sinto insegura.
    mas tenho pretensão de aprender ainda.
    acho que nunca estamos prontas!
    bjs
    lilly

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  14. Eu amo cozinhar, sempre gostei...
    Lindas as imagens!!!
    Bjs

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  15. O: Que dom para escrever. Para escrever e cozinhar! Estou animada a por a mão na massa (: Meu cômodo preferido aqui em casa é a cozinha, lá eu auxílio a vovó, exatamente como você fazia na sua 'aborrecência' eu faço na minha -hehe. Pelo visto, não sou tão alienígena quanto pensava :D

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  16. Uau... Que lindo post. Amei toda a contextualização de sua experiência com a magia da cozinha. A cada etapa ia me lembrando do meu processo de relação com a cozinha e com a comida e de tudo que essas práticas representavam para a minha família.

    Obrigada por este presente.

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  17. Ola, Santinha, aprendiz sou e me empolgo com seus contos.

    Saudades sua tb! Vem pra cá!!

    Grande beijo
    Paty

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  18. Ai ai... (suspiros)...
    Que post mais gostoso de se ler...
    Parabéns!!!
    Esse blog é muito bom!!!

    bjo,
    Ro Gratao

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